sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"E de que serve um livro, sem desenhos ou diálogos?" (Lewis Carroll)


Palavras apagadas,
páginas arrancadas,
nada.
O silêncio dói,
muito mais do que qualquer injúria.
Silêncios do sempre.
Silêncios temporários.

E de que serve um livro em branco?

Para cada momento,
o conforto da falta só se dá com o tempo.
Um dia, depois outro e outro e mais outros.
Até as memórias tomarem conta
de um espaço que só a elas cabem.
É necessário aprender a preencher nossos vazios,
porque é preciso viver.

Recriam-se fantasias.
Reinventam-se memórias.


É preciso renascer todos os dias,
acordando com a alma,
os sonhos que desejamos viver,
as palavras que pretendemos rabiscar,
a aquarela que arquitetamos colorir,
o livro que imaginamos escrever,
e a presença que queremos ser.

No mundo de Alice tudo é possível!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Brasil à Luz de Zé


Quem se reconhecia num Brasil litorâneo, do samba carioca, do carnaval, do futebol e de Carmen Miranda? Homogeneização e unidade cultural prestavam serviços aos interesses da política integralista e nacionalista de Getúlio Vargas, a partir de 1930. Os versos de Zé da Luz trazem uma reação diante das identidades instituídas pelo Estado Brasileiro. Ele nega o nacionalismo getulista, ao mesmo tempo em que cria suas próprias representações, apresentando outro sentimento de nacionalidade, como uma possível resposta ao que lhe é imposto. Zé dá luz a outro Brasil e reaviva a ideia de que o sertão seria a raiz da brasilidade, ou, como diria Euclides da Cunha, “a rocha viva da nossa raça”.
 
 
 
O qui é Brasí Cabôco?

É um Brasí deferente
Do Brasí das capitá.
É um Brasí brasilêro,
Sem mistura de instrangeiro,
Um Brasí nacioná! (...)

É o Brasí sertanejo
Dos côco, das imboláda,
Dos samba, dos rialêjo,
Zabumba e caraxá!

É o Brasí das vaquêjada,
Do abôio dos vaquêro,
Do arranco das boiada
Nos fechado ou tabulêro! (...)


Brasí cabôco não come
Assentado nos banquete,
Misturado cum os hôme
De casáca e anelão...

Brasí Caboco só come
O bode seco, o feijão,
E as vez uma paneláda,
Um pirão de carne verde,
Nos dias das inleição,
Quando vai sirvi de iscada
Prôs hôme de pusição!

Brasí Caboco não sabe
Fala ingrês nem francês,
Munto meno o purtuguês
Qui os outro fala imprestádo...
Brasí Cabôco não iscreve;
Munto má assina o nome
Pra vota, prumode os home
Sê Gunverno e Diputádo!

Mas porém, Brasí Cabôco
É um Brasí Brasilêro,
Sem mistura de instrangêro
Um Brasí Nacioná. (...)


Dentre as representações destacadas, as questões sociais estão fortemente marcadas, evidenciando um Brasil analfabeto, sem políticas públicas, o Brasil da fome, um Brasil da luta. Nesse contexto, a poesia de Zé da Luz representa a resistência a uma política excludente, tendo na valorização da identidade sertaneja o seu mais precioso trunfo. Os versos de Zé da Luz são, pois, gritos que simbolizam a existência e a resistência. O sertão pulsa nas suas palavras.