domingo, 29 de abril de 2012

RELATÓRIO DE PENDÊNCIAS


Salvo os ruídos, que se encontram em toda parte,

venho, através desta, acalentar o dia,
porque os homens não vivem apenas das palavras,
mas do quanto são capazes de transformar seus corações.
Foto : Flávia Tais Mucarzel Rosa
Barcelona
 
Lembro do parque e do cantar das aves,
cuja beleza é, simplesmente, obra de Deus.
Este, o grande artista do mundo, é o único
que insiste em não ser visto. 
Incógnita, nosso mestre oculto
nos dá a vida
e faz nossos batimentos ritmados,
no compasso das palmas das nossas mãos.
Nas suas linhas, 
vê-se formas únicas,
traços do destino que deve ser cuidado
por ser tão delicado
quanto as duplicações do nosso dna.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

DIÁRIO DA MULHER INVISÍVEL Parte II

                                                                                  
   Querido diário!


   - A gente vai se ver amanhã?

   Não, você sabe que só escrevo quando não há mais o que fazer. Quando se extrapola a vida, eu passo às letras, às palavras, às páginas.
 
 
   - A gente vai se ver amanhã?

   Idealizei que essa pergunta fosse o desejo de um reencontro, mas não foi. Por que perguntou? Não faço a mínima ideia. As pessoas falam o que as outras querem ouvir?  Não temos a liberdade de dizer o que realmente somos?

   Se as palavras são minhas, se o querer é meu, porque eu vou dizer o que o outro quer ouvir e não o que eu desejo expressar?
 
   As palavras circulam nos lábios, como circulam no vento, vagueiam no espaço e brincam com o tempo. Completamente soltas e livres, mas tão completamente perdidas de si, que se desconfiguram e eu já não consigo mais codificar suas vogais e consoantes.  


   - A g e n t e v a i s e v e r a m a n h ã?
 
   Acho que era isso, ou talvez...


 
   - e  A    g   e  a    s   n   t  v   r  i  e  a  ? v  e  m h n a ã

   Agora ficou melhor, compreendi tudo, perfeitamente...


 
  - A gente vai se ver amanhã? 

   Ah... E eu, simplesmente, respondi:

    

    - S   i    l    m,    g  e  a  m  i  !

  Como se eu mesma acreditasse, como se ele próprio acreditasse que eu acreditava no que ele queria me fazer ouvir. Hoje, já consigo, com algum esforço, enxergar o embaraço das letras. No dia, devo confessar: li as palavras trocadas.