Outro dia, voltando do trabalho...
Aquele TOC TOC TOC TOC, sem fim...
Concentrei no ritmo e no som dos passos do meu sapato. Os pés já calejados insistiam, persistiam firmes no TOC TOC do salto tentando se equilibrar na calçada de pedras.
Por que existem pessoas que lutam pelo seu, destruindo o que pertencem a outros? Esse dia foi muito complicado... Ainda não entendo como lidar com tanto egoísmo, falta de ética e desrespeito. Ser humano é bicho que se comporta como se vivesse num aquário. Já viu, peixinho disputando aquelas rações aquarianas? Acho que brigam por pouco porque só tem aquilo mesmo, vai se contentar com o quê? Tem gente que quando precisa corre e pede socorro, mas quando é pra socorrer sabe inventar uma bela desculpa. Tem gente que faz questão de ser esperto. Por momentos de prazer? Para alisar o ego? Só queria saber se o valor, seja lá qual for, realmente vale o sabor de ver os outros protagonizando o papel do cocô do cavalo do bandido. Que esperteza é essa? Saborear a merda dos outros?
Questionar só estava me dando dor de cabeça, o que desconcentrava a passada. Voltei a me equilibrar no TOC TOC TOC TOC do meu salto, nas pedras molhadas da chuva.
Lembrei como havia sido difícil chegar até ali. Lembrei do meu sapato folgado que mais parecia uma prancha de surf e me arrastava pela rua. Troquei! Por outro, um pouco mais apertado, que me deu firmeza e bons calos nos pés. Onde eu posso encontrar a numeração 34,5? Tem alguém que ainda faz calçados por encomenda? Será que é muito caro? Lá ia eu, pensando nos acontecimentos... E o TOC TOC me lembrou que era necessário chegar sem maiores acidentes no percurso, já me bastavam os calos.
Concentração, sem perder o ritmo, o balanço, a dança... Na chuva... Não, chuva não! Lá ia eu, novamente, romanticamente, numa hora daquelas, recordar o filme “Dançando na chuva”. E é esse mesmo o nome? Quem era mesmo aquele ator? A música era tão linda! ... TOC TOC TOC TOC
Não pare, não pense, mantenha o ritmo, equilíbrio, concentração, você precisa chegar, no lugar onde o barco alcança a linha do horizonte. E quando o vento soprar contra, corra, se possível for, sem salto e sem calos.