terça-feira, 31 de julho de 2018




Sonhei uma chuva de estrelas cadentes

a cada luz que caía do céu

um pedido se perdia

era uma e outra e tantas outras mais

nada pedi, não havia tempo

perdi-me no encantamento do show celeste

 

Agora que acordei

que não chove mais na imensidão do meu mar

parei para fazer meu pedido

eu quero uma tempestade de estrelas cadentes

lá onde na terra construíram fronteiras

para que todos possam pedir, desejar e sonhar
 
 
 

Para meu avô libanês Pedro Elias Mucarzel,
para toda minha família libanesa (espalhada por aí)
e para os imigrantes do mundo inteiro.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

domingo, 29 de abril de 2012

RELATÓRIO DE PENDÊNCIAS


Salvo os ruídos, que se encontram em toda parte,

venho, através desta, acalentar o dia,
porque os homens não vivem apenas das palavras,
mas do quanto são capazes de transformar seus corações.
Foto : Flávia Tais Mucarzel Rosa
Barcelona
 
Lembro do parque e do cantar das aves,
cuja beleza é, simplesmente, obra de Deus.
Este, o grande artista do mundo, é o único
que insiste em não ser visto. 
Incógnita, nosso mestre oculto
nos dá a vida
e faz nossos batimentos ritmados,
no compasso das palmas das nossas mãos.
Nas suas linhas, 
vê-se formas únicas,
traços do destino que deve ser cuidado
por ser tão delicado
quanto as duplicações do nosso dna.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

DIÁRIO DA MULHER INVISÍVEL Parte II

                                                                                  
   Querido diário!


   - A gente vai se ver amanhã?

   Não, você sabe que só escrevo quando não há mais o que fazer. Quando se extrapola a vida, eu passo às letras, às palavras, às páginas.
 
 
   - A gente vai se ver amanhã?

   Idealizei que essa pergunta fosse o desejo de um reencontro, mas não foi. Por que perguntou? Não faço a mínima ideia. As pessoas falam o que as outras querem ouvir?  Não temos a liberdade de dizer o que realmente somos?

   Se as palavras são minhas, se o querer é meu, porque eu vou dizer o que o outro quer ouvir e não o que eu desejo expressar?
 
   As palavras circulam nos lábios, como circulam no vento, vagueiam no espaço e brincam com o tempo. Completamente soltas e livres, mas tão completamente perdidas de si, que se desconfiguram e eu já não consigo mais codificar suas vogais e consoantes.  


   - A g e n t e v a i s e v e r a m a n h ã?
 
   Acho que era isso, ou talvez...


 
   - e  A    g   e  a    s   n   t  v   r  i  e  a  ? v  e  m h n a ã

   Agora ficou melhor, compreendi tudo, perfeitamente...


 
  - A gente vai se ver amanhã? 

   Ah... E eu, simplesmente, respondi:

    

    - S   i    l    m,    g  e  a  m  i  !

  Como se eu mesma acreditasse, como se ele próprio acreditasse que eu acreditava no que ele queria me fazer ouvir. Hoje, já consigo, com algum esforço, enxergar o embaraço das letras. No dia, devo confessar: li as palavras trocadas.



domingo, 10 de abril de 2011

DIÁRIO DA MULHER INVISÍVEL Parte I

Foto: Flávia Tais Mucarzel Rosa
Paris / França

Querido diário!


Quem não é visto, não é lembrado. Frase recorrente aos meus ouvidos. Veio em minha memória o cavaleiro inexistente de Ítalo Calvino. O que falar das armaduras andantes? Tão visíveis, tão perfeitas que é difícil acreditar na sua existência. Haja cavaleiros inexistentes... Apesar de ser invisível, aos olhos de quem não me vê, existo. 


                                                                                                                


domingo, 11 de julho de 2010

caminho de casa.com

Gibran says: Oi! Tudo bem?

Janaína says: Tudo ótimo! E vc?
 
Gibran says: Tudo bem tbm

Gibran says: Adorei ter te visto na praia, sempre linda e o sol brilha em vc

Janaína says: Mas vc nunca me viu!

Gibran says: Vc vive nos meus sonhos, só teclando... acabo confundindo com a realidade. lôco pra te conhecer, pessoalmente
 
Janaína says: :)

Gibran says: Se importaria em ir comigo ao meu ap para batermos um papo legal?
 
Janaína says: Q tal um barzinho? rsrs

Gibran says: Insisto, gostaria que conhecesses meu ap, minha mãe fez uma bela decoração
 
Janaína says: Nome completo, identidade, cpf... rsrsrs

Gibran says: Gibran Ramzi Mustafá

Janaína says: hummmmmm

Gibran says: Prazer madame

Janaína says: Idade...  O q faz?

Gibran says: 34, sou motorista. [risos introspectivos, ele não é motorista] E vc?

Janaína says: Professora, 28

Gibran says: Você deve ter jeito com as crianças

Janaína says: Trabalho com adultos

Gibran says: Ah... sim, leciona o q?

Janaína says: Matemática

Gibran says: Tenho dificuldade na matemática, a informática me deixou acomodado

Janaína says: Infelizmente, tenho que ir

Gibran says: Pode me dar seu celular?

Janaína says: Tudo bem. Anota aí: 5578919...


Conversa com + 5578919...


+ 55...: Choro no caminho de casa!
Eu(Ana): Quem é?
 
Eu(Ana): Desculpa não conhecer esse número, mas vc tá precisando de alguma ajuda?

+ 55...: Desculpe! eh que esse número era de uma amiga minha... quem é vc?

Eu(Ana): Eu me chamo Jade, provavelmente vc não me conhece. Percebi q era uma mensagem enviada errada, mas fiquei preocupada. Seja lá o q tenha acontecido, fique tranquila ou tranquilo, siga sempre em frente, não pare nos buracos da vida, adiante sempre haverá verdes caminhos. Fique bem!

+ 55...: Obrigado! mas o que vc faz? qual a sua idade?

Eu(Ana): Eu tenho 32. E vc, quem é?

+ 55...: Gibran, 34. o que vc faz?

Eu(Ana): Ah...eu sou professora [risos introspectivos, ela não é professora], fiz doutorado em letras. E vc, faz o q? Está melhor?

Eu(Ana): Pera... Caminho de Casa... Vc estava se referindo ao bar?

+ 55...: Sim! rs... e o choro é o grupo de chorinho... rs. vc tem msn?

Eu(Ana): Rsrs... Ahh tá... Tenho sim, anota ai: ...

        
"Farto de ver
a visão que se reencontra em toda a parte.
Foto: Flávia Tais Mucarzel Rosa
Parque Güel / Barcelona
Farto de ter
o ruído das cidades, à noite, e ao sol, e sempre.
Farto de saber 
as paradas da vida.
– Ó Ruídos e Visões!
Partir para afetos e rumores novos."
            Rimbaud.
 

domingo, 11 de abril de 2010

Para Romualdo Santana

Outro dia, voltando do trabalho...
Aquele TOC TOC TOC TOC, sem fim...

Concentrei no ritmo e no som dos passos do meu sapato. Os pés já calejados insistiam, persistiam firmes no TOC TOC do salto tentando se equilibrar na calçada de pedras.

Por que existem pessoas que lutam pelo seu, destruindo o que pertencem a outros? Esse dia foi muito complicado... Ainda não entendo como lidar com tanto egoísmo, falta de ética e desrespeito. Ser humano é bicho que se comporta como se vivesse num aquário. Já viu, peixinho disputando aquelas rações aquarianas? Acho que brigam por pouco porque só tem aquilo mesmo, vai se contentar com o quê? Tem gente que quando precisa corre e pede socorro, mas quando é pra socorrer sabe inventar uma bela desculpa. Tem gente que faz questão de ser esperto. Por momentos de prazer? Para alisar o ego? Só queria saber se o valor, seja lá qual for, realmente vale o sabor de ver os outros protagonizando o papel do cocô do cavalo do bandido. Que esperteza é essa? Saborear a merda dos outros?

Questionar só estava me dando dor de cabeça, o que desconcentrava a passada. Voltei a me equilibrar no TOC TOC TOC TOC do meu salto, nas pedras molhadas da chuva.

Lembrei como havia sido difícil chegar até ali. Lembrei do meu sapato folgado que mais parecia uma prancha de surf e me arrastava pela rua. Troquei! Por outro, um pouco mais apertado, que me deu firmeza e bons calos nos pés. Onde eu posso encontrar a numeração 34,5? Tem alguém que ainda faz calçados por encomenda? Será que é muito caro? Lá ia eu, pensando nos acontecimentos... E o TOC TOC me lembrou que era necessário chegar sem maiores acidentes no percurso, já me bastavam os calos.

Concentração, sem perder o ritmo, o balanço, a dança... Na chuva... Não, chuva não! Lá ia eu, novamente, romanticamente, numa hora daquelas, recordar o filme “Dançando na chuva”. E é esse mesmo o nome? Quem era mesmo aquele ator? A música era tão linda! ... TOC TOC TOC TOC

Não pare, não pense, mantenha o ritmo, equilíbrio, concentração, você precisa chegar, no lugar onde o barco alcança a linha do horizonte. E quando o vento soprar contra, corra, se possível for, sem salto e sem calos.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"E de que serve um livro, sem desenhos ou diálogos?" (Lewis Carroll)


Palavras apagadas,
páginas arrancadas,
nada.
O silêncio dói,
muito mais do que qualquer injúria.
Silêncios do sempre.
Silêncios temporários.

E de que serve um livro em branco?

Para cada momento,
o conforto da falta só se dá com o tempo.
Um dia, depois outro e outro e mais outros.
Até as memórias tomarem conta
de um espaço que só a elas cabem.
É necessário aprender a preencher nossos vazios,
porque é preciso viver.

Recriam-se fantasias.
Reinventam-se memórias.


É preciso renascer todos os dias,
acordando com a alma,
os sonhos que desejamos viver,
as palavras que pretendemos rabiscar,
a aquarela que arquitetamos colorir,
o livro que imaginamos escrever,
e a presença que queremos ser.

No mundo de Alice tudo é possível!