terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Mulher Aranha

ENQUANTO ISSO, NA SALA DE JUSTIÇA...



A MULHER ARANHA TRAMA O MUNDO


EM SUA TEIA.

Fotos: Flávia Tais Mucarzel Rosa
Reserva Sapiranga - Linha Verde  BA

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Palavras...

 
Tantos dizeres moram dentro de mim.
Há momentos, porém, que as palavras parecem sumir.
Elas saem do coração e transcendem na respiração.
Inspiram.
Expiram.
Inspiram.
Suspiram.
Batimentos ritmados, acelerados, explosivos.
Na hora exata do ato, bem ali, na boca, na língua. Desaparecem.
São as palavras pedindo silêncio.

sábado, 25 de julho de 2009

O caso de Joana e o príncipe das águas

Era verão, e uma luz tropical iluminava o dia. Foi num começo de tarde, quando os meus olhos encontraram pela primeira vez os olhos dele...

Antes dos olhos, a voz. Fiquei extasiada quando ouvi pela primeira vez a sua voz. Aquele francês parisiense, num tom de homem macho, meio rouco, meio tosco, meio elegante, meio charmoso. Definitivamente, não vou conseguir descrever sua voz, só ouvindo para senti-la. Aquele som se perpetuou apenas na minha memória, impossível reproduzi-la, só ele mesmo. Mas, imagine, era uma voz de homem, macho e elegante, ritmada por um francês parisiense. Sozinho estava, perdido nas matas da Chapada. Ligou à procura de quem pudesse localizá-lo no espaço:

- Je suis frère de ton ami. Nous pouvons faire une promenade? Je suis seul ici...

E eu respondia:
-Oui, oui. C´est bon! C´est bon!

E cá, com todos os meus sentidos, suspirava:
- Que voz, que voz!

Foi num início de tarde quando nos encontramos pela primeira vez. Inflamados pelo sol que irradiava o nosso olhar, imaginamos juntos o que nos permitiríamos viver. Enflammé! Foi assim que seu coração registrou nossa energia. As palavras foram poucas, aliás, apenas os olhos sabiam falar e compreender perfeitamente sotaques tão carregados de si. No mundo do diverso, o olhar é uma língua universal, apenas ele pode decifrar o indizível.

O certo é que talvez o único elo que nos unia foi desfeito. Hoje, vejo claramente, que de fato as diferenças foram postas, depois das cartas na mesa. Existia outro elemento, que até agora questiono qual teria sido! Não sei por que diabos o ser humano insiste na idéia de que sempre há um elemento que nos impede de realizar algo. A pedra fui eu mesma. O elemento era eu, fui infiel a mim. Agora, tenho certeza disso. Depois da minha infidelidade, o príncipe seguiu seu rumo, sua viagem, mas não esqueceu o fogo que há tão pouco tempo queimara em seu coração. Na verdade, tudo se queimou.

A princípio, pensei que a universalidade do olhar fosse a nossa luz, mas foi a nossa cruz. Caminhávamos num sol quente, guiados pelo vento que lentamente soprava. Nosso destino se estendia rumo ao lugar onde é obrigação do rio desaguar. E foi ali que também desaguamos. Sentada na areia da praia, palavras se perderam no vento. As diferenças foram demarcadas. Eu, a Terra, ele, o Mar. Enquanto ainda sonhava em embarcar no seu veleiro, ele olhava, na distinção, o impossível. Foi um banho de água fria, águas de um rio gelado, europeu, em época de inverno. O príncipe retomou seus mares para as águas que dizia ser apenas suas e que (como bem compreendi!) a mim não caberia navegar.

É verdade que tudo ficou na base da imaginação e da fantasia. De concreto, apenas palavras soltas. O problema do nosso encontro foi justamente o olhar. Olhamo-nos demais, fantasiamos, tememos, ansiamos e definhamos. Vivemos toda a complexidade do pensamento ocidental. Ele, provavelmente, por ter articulado toda a sua capacidade lógica de pensar as dificuldades de uma eventual aproximação entre o diverso. Ridículo esse príncipe insano, que embora desfrutasse de tantos lugares, mal soube reconhecer o seu!


ps 1: texto escrito em 2006 e reescrito em 2009.

ps 2: foto do mar de Barcelona, aos meus olhares, em janeiro de 2009.